Quando a Fisioterapia Orofacial faz sentido

Licenciada em Fisioterapia, a Dra. Shanna Soares especializou-se em Fisioterapia Orofacial, direcionando mais especificamente a sua pesquisa na Dor Orofacial e Disfunção Temporomandibular.

“Especializei-me nesta área porque necessitei da mesma como paciente. Sofri das várias formas de disfunção temporomandibular, tanto muscular como articular, estive alguns meses sem conseguir comer, longos tempos de dor de cabeça diária, e só há poucos anos encontrei uma solução para mim.

Disseram-me que teria de me habituar a esta dor, que teria de conviver com ela, eventualmente deixar de trabalhar. E eu não quis aceitar, até porque o ser humano não deve viver com dor e deve ter uma boa qualidade de vida. Então, quis dedicar-me a conhecer mais, a investigar novas formas de tratar e aliviar estes sintomas e ajudar pessoas com os mesmos problemas que eu.”

 

Esta especialidade – a Fisioterapia Orofacial – não é muito conhecida nem acessível para uma boa parte das pessoas. Como é que a maioria dos casos chega ao seu consultório?

A grande maioria das pessoas que aqui chega vem referenciada por Médicos Dentistas e outros profissionais de saúde que, atualmente, já estão mais despertos para sinais e sintomas de algumas patologias deste foro. E ainda por Médicos Dentistas especializados em Oclusão e Disfunção Temporomandibular, por Cirurgiões Maxilo-Faciais e até por Otorrinolaringologistas.

No entanto, já se verifica um número crescente de pessoas que pesquisam na Internet, procuram investigar um pouco mais sobre aquilo que sentem e chegam a mim ou a algum outro profissional da especialidade.

 

Quais os sinais e sintomas mais comuns das patologias que podem ser diagnosticadas e tratadas através da Fisioterapia Orofacial?

Os sinais e sintomas mais frequentes são: dor/dificuldade/limitação em movimentar a boca, ruídos nas articulações da boca (articulação temporomandibular), desvio no movimento de abrir a boca, ficar com a boca presa em algum movimento, dor/zumbido/apito nos ouvidos, tonturas, dor no pescoço, dor na face, dores de cabeça entre outros.

Vários estudos apontam para uma estreita relação entre as dores de cabeça e Disfunção Temporomandibular, sendo a Disfunção Temporomandibular a causa mais frequente de dor não dentária.

 

Como se processa o diagnóstico e a identificação das patologias?

O paciente chega e fala-nos dos seus sintomas, de como e quando começaram as dores, o que piora, o que melhora, se têm outros problemas de saúde. Ou seja, um resumo do historial clínico.

Em seguida, analisamos os movimentos da mandíbula, se o paciente consegue abrir bem a boca, se tem alguma alteração nos movimentos da boca, fazemos uma palpação da articulação da boca, da face, da cabeça e do pescoço. Ou seja, de todos os músculos que envolvem a articulação temporomandibular. Vemos se há dor e se a mesma irradia para outro local.

Por exemplo, há pacientes com dor no ouvido que, quando pressionamos um músculo da face, sentem a dor no ouvido. Há pacientes com zumbido que, quando apertamos um músculo do pescoço, provocamos o zumbido. Dores nos músculos do pescoço, por vezes, também irradiam para a face e para a cabeça e essa dor pode ser familiar às dores de cabeça sentidas pelos pacientes. Portanto, a avaliação é muito minuciosa e detalhada para que se perceba a verdadeira origem da dor.

 

MD Clínica | Fisioterapia Orofacial | Medicina Dentária
Dra. Shanna Soares | Fisioterapia Orofacial

 

Podemos identificar alguns casos práticos?

Um paciente que se queixa de dor articular e com alterações na função da boca, na fala ou na mastigação. Neste caso avaliamos o estado da articulação, procuramos perceber o motivo da dor  local, se existe algum bloqueio articular e, se assim for, tentamos desbloquear a articulação. Recorremos, por vezes, a uma técnica chamada viscossuplementação (injeções de ácido hialurónico dentro da articulação) que é administrada pelo médico dentista.

Depois, também temos o paciente com dor muscular. Que recorre à consulta por queixas de dor na face, dor na cabeça ou dor nos músculos do pescoço, e estas dores incomodam e retiram qualidade de vida. Muitas vezes, já é uma dor crónica e com a qual convivem há muitos anos. Aqui, a Fisioterapia entra para trabalhar os músculos, ensinar exercícios para fazer no seu dia-a-dia como parte integrante do tratamento, o Médico Dentista poderá receitar alguma farmacologia, pedir exames complementares de diagnóstico, e, eventualmente, poderá receitar uma goteira de relaxamento.

Outro caso muito comum é o paciente com cefaleia: queixa-se de dor de cabeça frequente, na zona das têmporas, ou noutros locais, muita vezes confundida com a enxaqueca. É muito importante percebermos que tipo de dor de cabeça é que é: se se trata de tensão, se é realmente uma enxaqueca ou se é um tipo de dor associada a uma disfunção temporomandibular, seja articular ou muscular.

 

Resumindo, a especialidade da Fisioterapia Orofacial, tal como as especialidades da Medicina Dentária, é ainda mais eficiente quando está alinhada com profissionais de outras áreas…

É essencial esta noção de trabalho multidisciplinar.

Nós, Fisioterapeutas desta especialidade, precisamos de colaborar com os Médicos Dentistas e vice-versa. É fundamental ter a possibilidade de trabalhar em conjunto: Fisioterapeutas, Médicos Dentistas, Cirurgiões Maxilo-Faciais, Psicólogos, Terapeutas da Fala e outros profissionais de saúde para que a abordagem e comunicação sejam fáceis e compreensíveis não só entre os profissionais como também entre os nós e o paciente.

 

É importante alertar as pessoas para estarem atentas a alguns comportamentos que podem contribuir para estes problemas? Aconselha algum tipo de exercício?

Cada vez temos mais trabalho e isso é um sinal do ambiente que nos rodeia.

A consciencialização e educação da pessoa com Disfunção Temporomandibular é muito importante para que os tratamentos conservadores sejam eficazes e alguns comportamentos sejam alterados, como por exemplo roer as unhas, apertar os dentes, mastigar pastilhas elásticas.

As crianças também devem passar por uma consulta de rastreio para prevenir o agravamento ou o aparecimento da doença, pois a Disfunção Temporomandibular pode aparecer em qualquer idade com ou sem dor.

O ritmo do dia-a-dia é cada vez mais um fator de stress. Stress esse que se acumula em locais específicos, como é o caso da boca e, consequentemente, dos dentes. Muitas vezes essa tensão é impercetível e o paciente nem a reconhece.

O paciente é o maior responsável na sua reabilitação, a realização de exercícios durante o dia é importante para o complemento das sessões de Fisioterapia Orofacial. Por isso, para os mais esquecidos, aconselho a Bruxapp, uma aplicação que pode ser descarregada para o telemóvel e que, ao longo do dia, vai relembrando a necessidade de relaxar a boca e não apertar os dentes. E os resultados são ótimos!

 

 

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